DIÁRIOS DE GEO

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CAU NAS ESCOLAS: GEOGRAFIA, EDUCAÇÃO URBANA E DIREITO À CIDADE NA EMEF PORTO NOVO!

Uma experiência de investigação do território que aproxima a Geografia escolar, a Arquitetura e o Urbanismo, valorizando o conhecimento dos estudantes sobre o espaço onde vivem.

A cidade não é apenas o lugar onde vivemos: é também um espaço de relações sociais, de experiências cotidianas, de conflitos, de memórias e de possibilidades de transformação. Compreendê-la exige aprender a observar suas paisagens, interpretar sua organização territorial e reconhecer os processos históricos, econômicos, políticos e ambientais que participam de sua construção.

É nessa perspectiva que a Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Novo, situada na Zona Norte de Porto Alegre, participa do projeto CAU nas Escolas, iniciativa piloto de educação urbana desenvolvida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS), por meio de sua Comissão de Ensino e Formação (CEF).

Figura 1 – Apresentação do projeto CAU nas Escolas aos estudantes da EMEF Porto Novo, em 4 de setembro de 2026.
Fonte: CAU/RS (2026).

O projeto propõe aproximar os estudantes dos conhecimentos da Arquitetura e do Urbanismo, incentivando a observação crítica dos espaços urbanos, o reconhecimento do território e a reflexão sobre o direito à cidade.

Na EMEF Porto Novo, a iniciativa envolve estudantes dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, estabelecendo importantes conexões com o ensino da Geografia e com as práticas pedagógicas de investigação do espaço geográfico.

Figura 2 – Conselheiros do CAU e Professores da EMEF Porto Novo, orientadores do projeto.
Fonte: CAU/RS (2026).


O TERRITÓRIO COMO ESPAÇO DE APRENDIZAGEM

No dia 4 de setembro de 2026, o projeto foi apresentado à comunidade escolar, com a participação da presidente do CAU/RS, Andréa Hamilton Ilha, e de integrantes da Comissão de Ensino e Formação.


Vídeo 1 – Apresentação do projeto CAU nas Escolas na EMEF Porto Novo, em 4 de setembro de 2026.

Fonte: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS, 2026).

A proposta parte de uma concepção fundamental: a cidade pode e deve ser compreendida como espaço educativo, no qual os estudantes são convidados a reconhecer os elementos da paisagem, identificar problemas urbanos e refletir sobre as condições de vida da população.

O entorno da EMEF Porto Novo oferece possibilidades particularmente relevantes para essa investigação. Situada em uma área de articulação entre Porto Alegre e municípios de sua Região Metropolitana, a escola está inserida em um território marcado por diferentes formas de ocupação, circulação e uso do solo.

Além disso, os impactos das enchentes de 2024 evidenciam a importância de discutir questões relacionadas ao planejamento urbano, à infraestrutura, à drenagem, aos riscos socioambientais e às desigualdades presentes na produção do espaço urbano.

Nesse contexto, estudar o bairro significa ir além de sua localização no mapa: significa compreender as relações que conectam a realidade local aos processos mais amplos de organização da cidade e da Região Metropolitana.

DA OBSERVAÇÃO DA PAISAGEM À CARTOGRAFIA COLABORATIVA

Uma das dimensões centrais da proposta é o reconhecimento do território por meio da observação direta, do registro de informações e da elaboração de representações espaciais.

As atividades contemplam caminhadas exploratórias pelo entorno da escola, identificação de lugares significativos, leitura da paisagem urbana e organização coletiva das informações obtidas.

No âmbito das aulas de Geografia, esse trabalho encontra importantes possibilidades de aprofundamento com a utilização de recursos de Cartografia Digital e Colaborativa, especialmente por meio da plataforma CalTopo.

Figura 3 – Estudantes trabahando na Cartografia Digital e Colaborativa da Área de Estudo.
Fonte: CAU/RS (2026).

Com destaque para as turmas 91 e 92, do 9º ano, a utilização dessa ferramenta integra uma proposta de investigação geográfica na qual os estudantes participam da identificação, delimitação e representação de elementos do território estudado.

A cartografia, nessa perspectiva, deixa de ser compreendida apenas como instrumento de localização e passa a constituir uma linguagem de investigação, interpretação e comunicação do espaço geográfico.

O trabalho permite relacionar conhecimentos cartográficos a questões concretas do cotidiano, articulando diferentes escalas de análise e valorizando os saberes que os próprios estudantes possuem sobre os lugares onde vivem.

A CIDADE QUE TEMOS E A CIDADE QUE QUEREMOS

No dia 9 de outubro, uma nova etapa do projeto reuniu estudantes e representantes do CAU/RS para retomar os registros produzidos durante o reconhecimento do entorno escolar.

As informações levantadas foram organizadas coletivamente e transformadas em material gráfico destinado à exposição na escola, ampliando as possibilidades de compartilhamento das observações com a comunidade escolar.

Mais do que reconhecer edificações, ruas, equipamentos públicos e espaços de circulação, a proposta convida os estudantes a refletir sobre a cidade como uma construção social, continuamente transformada pela ação humana.

Vídeo 2 – Etapa, na qual, os estudantes foram orientados pelos arquitetos e urbanistas do COU.

Fonte: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS, 2026).

Nesse sentido, questões relacionadas à mobilidade, à acessibilidade, à habitação, ao saneamento, ao meio ambiente e à infraestrutura urbana passam a integrar uma discussão mais ampla sobre cidadania e participação social.

O direito à cidade, portanto, não se resume ao acesso aos espaços urbanos, mas envolve também a possibilidade de compreender, discutir e participar das decisões que interferem na organização e na transformação desses espaços.

GEOGRAFIA, INTERDISCIPLINARIDADE E FORMAÇÃO CIDADÃ

A experiência desenvolvida na EMEF Porto Novo estabelece um diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, especialmente Geografia, História, Artes, Matemática e Ciências, além de mobilizar práticas de leitura, escrita, representação gráfica e comunicação.

No campo da Educação Geográfica, destacam-se conceitos fundamentais como lugar, paisagem, território, região e espaço geográfico, que permitem compreender a cidade em suas múltiplas dimensões.

A aproximação entre a escola e o CAU/RS também evidencia a importância da articulação entre os conhecimentos científicos, técnicos e escolares, reconhecendo que a formação para a cidadania se fortalece quando os conteúdos curriculares encontram correspondência nas experiências concretas dos estudantes.

Ao investigar o território onde estudam e vivem, os jovens são convidados a desenvolver um olhar mais atento para sua realidade e a compreender que a cidade não é uma construção pronta ou imutável: ela resulta de processos históricos, interesses, decisões e ações coletivas.

Aprender a ler a cidade é, também, aprender a reconhecer-se como sujeito de sua história e de suas transformações.

O Registro da Prática acompanha e documenta essa experiência, valorizando a investigação geográfica, a construção coletiva do conhecimento e o protagonismo dos estudantes da EMEF Porto Novo.

SAIBA MAIS — PUBLICAÇÕES DO CAU/RS

04 de setembro de 2026

CAU/RS leva Arquitetura e Urbanismo para dentro das escolas com projeto de educação urbana

13 de outubro de 2026

CAU nas Escolas: alunos da EMEF Porto Novo conhecem o bairro para entender o direito à cidade

REFERÊNCIAS

CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO GRANDE DO SUL (CAU/RS). CAU/RS leva Arquitetura e Urbanismo para dentro das escolas com projeto de educação urbana. Porto Alegre: CAU/RS, 4 set. 2026. Disponível em: https://caurs.gov.br/cau-rs-leva-arquitetura-e-urbanismo-para-dentro-das-escolas-com-projeto-de-educacao-urbana/. Acesso em: 16 out. 2026.

CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO GRANDE DO SUL (CAU/RS). CAU nas Escolas: alunos da EMEF Porto Novo conhecem o bairro para entender o direito à cidade. Porto Alegre: CAU/RS, 13 out. 2026. Disponível em: https://caurs.gov.br/cau-nas-escolas-emef-porto-novo-material-bairro/. Acesso em: 16 out. 2026.


REGISTRO DA PRÁTICA | Geografia – EMEF Porto Novo – Porto Alegre/RS | Outubro de 2026.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

LIVRARIA DRUMMOND: A PERMANÊNCIA DOS LIVORS E OS ESPAÇOS DE RESISTÊNCIA CULTURAL

Da Avenida Paulista às livrarias independentes de Porto Alegre: iniciativas que mantêm viva a cultura do livro e a formação de leitores.
 
Registro da Prática | Cultura, literatura e Geografia | Outubro de 2026

Uma livraria no coração da Avenida Paulista

Em 2022, quando o crescimento do comércio eletrônico e as dificuldades enfrentadas pelas grandes redes de livrarias já transformavam o mercado editorial brasileiro, surgiu, em São Paulo, a Livraria Drummond. Instalada no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, a iniciativa nasceu de uma parceria entre Vitor Tavares, ligado à Distribuidora Loyola, e Pedro Almeida e Diego Drumond, da Faro Editorial.

A proposta era oferecer uma livraria-vitrine: um estabelecimento aberto à diversidade de editoras, autores e públicos, no qual o leitor pudesse não apenas procurar o título que já conhece, mas também descobrir livros inesperados. Afinal, percorrer estantes, conversar com livreiras e livreiros e folhear obras são experiências que um catálogo digital nem sempre consegue substituir. A criação do empreendimento foi noticiada pelo PublishNews em junho de 2022.

O Conjunto Nacional e a memória da Livraria Cultura

O endereço escolhido não é um detalhe secundário. O Conjunto Nacional, projetado pelo arquiteto David Libeskind, é um marco da paisagem urbana da Avenida Paulista. Inaugurado como centro comercial em 1958, foi tombado pelo Condephaat em 2005 e consolidou-se como lugar de convivência, consumo e atividades culturais.

Durante décadas, o edifício abrigou a célebre Livraria Cultura. Sua história naquele endereço remonta a 1969; em 2007, a rede instalou uma grande unidade no espaço do antigo Cine Astor. A loja tornou-se referência para gerações de leitores, com ambientes destinados a livros, artes e atividades culturais. A megaloja encerrou suas atividades no Conjunto Nacional em abril de 2024, conforme registra a história oficial do edifício.

A Drummond foi aberta em 2022 em uma das áreas anteriormente utilizadas pela Cultura, enquanto a antiga megaloja ainda funcionava em outra parte do complexo. Assim, não se trata de dizer que uma livraria simplesmente substituiu a outra: trata-se de reconhecer uma continuidade simbólica da presença dos livros naquele território cultural de São Paulo.

Drummond Play: novos leitores, novos espaços

Em agosto de 2026, a Drummond ampliou seu projeto com a Drummond Play, um novo espaço no mesmo Conjunto Nacional, com atenção especial aos públicos infantil, infantojuvenil e jovem adulto, além da cultura geek. A expansão foi apresentada como forma de favorecer a autonomia das crianças na escolha de seus livros e de ampliar o contato entre diferentes gerações de leitores.

Segundo reportagem do PublishNews de 19 de agosto de 2026, o novo ambiente foi anunciado com cerca de 200 m² e a ampliação do acervo das duas unidades para mais de 80 mil exemplares. O projeto exprime uma ideia simples, mas significativa: a livraria física pode ser também um lugar de encontro e de descoberta, não apenas um ponto de venda.

A revista Drummond: uma publicação para circular ideias

Entre as iniciativas mais interessantes da livraria está a revista Drummond, publicação trimestral de distribuição nacional e gratuita. Sua edição de outubro, novembro e dezembro de 2026 (ano 4, n. 18) reúne reportagens, entrevistas, artigos e indicações editoriais. A edição foi produzida pela Agência Blogueria Comunicação e Content Marketing, conforme seu expediente.

Os temas incluem o bookmaxxing e os novos hábitos de leitura, a literatura infantil, os livros-jogos e os enigmas, além de romances policiais e novidades do mercado editorial. Na seção “1001 Noites — Novidades e lançamentos”, encontramos uma seleção de obras bastante diversas.

Foi justamente dessa seção que o Registro da Prática pinçou quatro títulos para uma pequena curadoria literária, considerando as possibilidades de diálogo com a educação e, especialmente, com a Geografia:

  • Brasil Assombrado, de Daniel Pires: uma jornada pelas lendas brasileiras, que suscita questões sobre imaginário popular, identidade regional e diversidade cultural.
  • Operação Colares, de Luana Cruz: uma narrativa de ficção científica ambientada no Pará, que permite refletir sobre a Amazônia, os lugares, a memória e a distinção entre acontecimentos documentados e criação literária.
  • Um mar de foguinhos, de Eduardo Galeano: histórias que evocam saberes dos povos originários e oferecem possibilidades de discussão sobre cosmovisões, diferenças e humanidade.
  • Sem respeito, de Byung-Chul Han: uma reflexão filosófica sobre a convivência, a alteridade e as relações sociais contemporâneas.

Importa registrar a natureza dessa seleção: não se trata de resenhas decorrentes da leitura integral dos quatro livros. Trata-se de uma curadoria feita a partir das apresentações publicadas na revista. O reconhecimento da fonte é parte necessária do trabalho de divulgação cultural; além disso, recomendações presentes em uma publicação vinculada a uma livraria devem ser lidas levando-se em conta tanto sua dimensão informativa quanto sua finalidade editorial e comercial.

Experiências semelhantes em Porto Alegre

Os espaços dedicados à cultura do livro não se limitam à Avenida Paulista. Em Porto Alegre, livrarias independentes também combinam curadoria, circulação de ideias e diferentes formas de encontro entre leitores. Cinco iniciativas ajudam a perceber essa diversidade.

Livraria Baleia — Centro Histórico

Na Rua dos Andradas, 351, a Livraria Baleia apresenta-se como uma “livraria que lê”. Seu catálogo valoriza especialmente produções literárias e debates relacionados a feminismos, antirracismo e direitos humanos. O espaço promove cursos, eventos e encontros. Há ainda uma iniciativa próxima à revista Drummond: uma newsletter gratuita, com opção de receber programação cultural ou sugestões de leitura escolhidas pelas próprias livreiras.

Bamboletras — bairro Farroupilha

Fundada em 24 de abril de 1995, a Bamboletras possui uma trajetória marcante entre as livrarias independentes porto-alegrenses. Sua história está relacionada à busca por um catálogo literário especializado e à valorização do encontro entre leitores. Fundada pela jornalista Lu Vilella, passou, em 2018, à direção de Milton Ribeiro. Um pouco dessa trajetória pode ser conhecida na reportagem “Os 25 anos da Bamboletras”, publicada pelo Correio do Povo. Fontes cadastrais atuais situam o estabelecimento na Avenida Venâncio Aires, 113, no bairro Farroupilha.

Livraria Taverna — Casa de Cultura Mario Quintana

Localizada na Casa de Cultura Mario Quintana, na Rua dos Andradas, 736, a Livraria Taverna une a venda de livros à atividade editorial. Sua editora, fundada em 2018, procura promover a bibliodiversidade, publicando literatura brasileira e obras relacionadas a questões raciais, feminismos, política, gênero e sexualidade. A localização merece destaque: o antigo Hotel Majestic, convertido em casa de cultura, constitui um importante lugar de memória urbana de Porto Alegre.

Livraria Paralelo 30 — bairro Farroupilha

Na Rua Vieira de Castro, 48, próxima ao Parque Farroupilha, a Livraria Paralelo 30 começou com vendas pela internet e inaugurou seu espaço físico em 2022. O empreendimento valoriza literatura e humanidades e recebeu programação cultural, encontros, lançamentos e saraus. Em 2026, por exemplo, foi um dos espaços associados ao festival literário Rastros do Verão. Sua trajetória foi apresentada pelo Jornal do Comércio; é possível acompanhar sua programação no Instagram da livraria.

Via Sapiens — Cidade Baixa

Situada na Rua da República, 58, a Via Sapiens reúne atividades de livraria e editora, com atenção a obras de ecologia, permacultura e sustentabilidade. Seu catálogo permite aproximações particularmente férteis com a Geografia, sobretudo nas discussões sobre relações sociedade-natureza, questões ambientais e alternativas de organização dos modos de vida.

Essas iniciativas não são idênticas à Drummond, nem necessariamente mantêm revistas impressas semelhantes à publicação paulistana. Compartilham, porém, algo mais amplo: a tentativa de fazer da livraria um ponto de circulação cultural e não apenas de comércio.

Uma leitura geográfica das livrarias

Por que olhar para livrarias a partir da Geografia? Porque elas também fazem parte da produção social do espaço urbano. Sua localização, sua permanência ou seu desaparecimento, o público que atraem e as atividades que promovem ajudam a compreender transformações nas centralidades comerciais e culturais de uma cidade.

O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, e bairros de Porto Alegre como Centro Histórico, Farroupilha e Cidade Baixa são realidades distintas. Em todos eles, entretanto, a existência de livrarias remete a perguntas relevantes: que espaços a cidade reserva à cultura? Quem pode frequentá-los? Como se constrói uma comunidade de leitores? O que se perde quando uma livraria fecha suas portas?

Para a escola pública, essas perguntas também apontam para uma questão de acesso. Livrarias, bibliotecas escolares, bibliotecas públicas, editoras e feiras do livro têm funções diferentes, mas podem contribuir, cada uma à sua maneira, para que os livros circulem e cheguem a novos leitores.

Talvez resida aí a maior razão para acompanhar projetos como o da Livraria Drummond e o das livrarias independentes porto-alegrenses: o livro não é apenas um objeto de consumo; é também um meio de encontro, interpretação do mundo e formação cultural.


Fontes e leituras complementares

Texto de divulgação cultural preparado para o Registro da Prática a partir de pesquisa em fontes públicas, consulta à revista Drummond e curadoria educacional. Não constitui reportagem de visita presencial às livrarias mencionadas.