A escola é, por assim dizer, o lugar onde se pode errar. Afinal, é para isso que ali estão os educandos: para serem educados. E aqui não se está falando apenas em instruir, mas em educar de fato - algo que, como já dizia Pedro Demo, vai muito além do mero instruir. Nesse processo, é tácito: o erro participa, inevitavelmente.
Talvez por isso o erro seja hoje tão tolerado. Afinal, ele “faz parte”. É aceito. Contudo, é justamente fora da escola que vivemos um tempo curioso. Em vários setores da vida social, na maioria das vezes, errar não traz consequências.
"Não dá nada!". "Tô nem aí!"
Em alguns concursos, por exemplo, cada erro tira ponto. Não responder é neutro. Errar custa. E isso muda completamente a forma de pensar antes de marcar uma das alternativas.
Skinner
(1904-1990) já afirmava que o comportamento responde às consequências - não para punir, mas para aprender. Quando o erro tem peso, o pensamento desacelera.
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Skinner no Departamento de Psicologia de Harvard, (1950). B. F. SKINNER. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/B._F._Skinner>. Acesso em: 02 fev. 2026.
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Karl Popper (1902-1994), via o erro como motor do conhecimento. Dizia, em essência:
"Aprendemos
por tentativa e erro."
Para ele, o conhecimento não avança quando simplesmente acertamos, mas quando erramos, identificamos o erro e o corrigimos.
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Karl Popper, em 1980. KARL RAIMUND POPPER. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper>. Acesso em: 02 fev. 2026. |
No
pensamento de Aristóteles (384a.C-322a.C.), o erro surge como falha da deliberação. Para o estagirita, erramos quando decidimos sem deliberar, ou quando a razão não governa a ação. O erro, portanto, não é moralmente mau em si, mas revela uma formação ainda incompleta do juízo.
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Busto de Aristóteles Cópia romana de uma escultura de Lísipo. ARISTÓTELES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles>. Acesso em: 02 fev. 2026. |
Um
tanto quanto diferente, Hannah Arendt (1906-1975) sustentava que agir
é arriscar a errar. Na filosofia da existencialidade da filósofa
alemã, deve-se dizer, há um distanciamento em relação às origens
exitencialistas, tais como, as de Heidegger ou de Jaspers; ela não
foca na interioridade, na subjetividade
abstrata ou na "filosofia do eu"; traz a
discussão, muito mais, para a esfera da filosofia política. Aqui, emerge um ponto decisivo, que o presente autor deseja destacar: no pensamento de Arendt, toda ação humana é, por definição, irreversível. Justamente por isso, exige responsabilidade. Pensar o erro a partir dessa chave muda tudo.
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Hannah Arendt, em 1933. HANNAH ARENDT. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt>. Acesso em: 02 fev. 2026. |
Entretanto, o problema da nossa cultura atual não é errar - é não precisar
revisar o erro.
Nos videogames contemporâneos, há vidas infinitas. Nos fliperamas da época do presente autor, eram três. Cada jogada importava.
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| Aspecto de uma "máquina" de Fliperama, nos anos 80. |
No xadrez, cada lance é praticamente irreversível - como a palavra dita, como a decisão tomada. No xadrez, não existe “tô nem aí”. Um lance mal pensado permanece no tabuleiro. Não há como desfazer. A consequência ensina.
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Vasyl Ivanchuk, a lenda ucraniana do xadrez, chorou após perder uma partida de Blitz, onde tinha uma posição vencedora, contra Daniel Naroditsky, em uma final, 2024. Fonte: ALVA, Suraj. Throwback: Vasyl Ivanchuk Burst Into Tears After Losing To Daniel Naroditsky In World Blitz 2024 Event. Video. Free Press Journal. Disponível em: <https://www.freepressjournal.in/sports/throwback-vasyl-ivanchuk-burst-into-tears-after-losing-to-daniel-naroditsky-in-world-blitz-2024-event-video>. Aceso em 02 de fev., 2026. |
Também por isso o xadrez é tão formativo para jovens: ele não ensina a não errar; ensina a pensar para não errar.
Assim, em relação ao erro, num mundo que anda rápido demais, decidir apenas depois de refletir não é só uma habilidade cognitiva - é uma atitude profundamente filosófica...