quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Livraria Drummond: a permanência dos livros e os espaços de resistência cultural


Da Avenida Paulista às livrarias independentes de Porto Alegre: iniciativas que mantêm viva a cultura do livro e a formação de leitores.

Registro da Prática | Cultura, literatura e Geografia | Outubro de 2026

Uma livraria no coração da Avenida Paulista

Em 2022, quando o crescimento do comércio eletrônico e as dificuldades enfrentadas pelas grandes redes de livrarias já transformavam o mercado editorial brasileiro, surgiu, em São Paulo, a Livraria Drummond. Instalada no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, a iniciativa nasceu de uma parceria entre Vitor Tavares, ligado à Distribuidora Loyola, e Pedro Almeida e Diego Drumond, da Faro Editorial.

A proposta era oferecer uma livraria-vitrine: um estabelecimento aberto à diversidade de editoras, autores e públicos, no qual o leitor pudesse não apenas procurar o título que já conhece, mas também descobrir livros inesperados. Afinal, percorrer estantes, conversar com livreiras e livreiros e folhear obras são experiências que um catálogo digital nem sempre consegue substituir. A criação do empreendimento foi noticiada pelo PublishNews em junho de 2022.

O Conjunto Nacional e a memória da Livraria Cultura

O endereço escolhido não é um detalhe secundário. O Conjunto Nacional, projetado pelo arquiteto David Libeskind, é um marco da paisagem urbana da Avenida Paulista. Inaugurado como centro comercial em 1958, foi tombado pelo Condephaat em 2005 e consolidou-se como lugar de convivência, consumo e atividades culturais.

Durante décadas, o edifício abrigou a célebre Livraria Cultura. Sua história naquele endereço remonta a 1969; em 2007, a rede instalou uma grande unidade no espaço do antigo Cine Astor. A loja tornou-se referência para gerações de leitores, com ambientes destinados a livros, artes e atividades culturais. A megaloja encerrou suas atividades no Conjunto Nacional em abril de 2024, conforme registra a história oficial do edifício.

A Drummond foi aberta em 2022 em uma das áreas anteriormente utilizadas pela Cultura, enquanto a antiga megaloja ainda funcionava em outra parte do complexo. Assim, não se trata de dizer que uma livraria simplesmente substituiu a outra: trata-se de reconhecer uma continuidade simbólica da presença dos livros naquele território cultural de São Paulo.

Drummond Play: novos leitores, novos espaços

Em agosto de 2026, a Drummond ampliou seu projeto com a Drummond Play, um novo espaço no mesmo Conjunto Nacional, com atenção especial aos públicos infantil, infantojuvenil e jovem adulto, além da cultura geek. A expansão foi apresentada como forma de favorecer a autonomia das crianças na escolha de seus livros e de ampliar o contato entre diferentes gerações de leitores.

Segundo reportagem do PublishNews de 19 de agosto de 2026, o novo ambiente foi anunciado com cerca de 200 m² e a ampliação do acervo das duas unidades para mais de 80 mil exemplares. O projeto exprime uma ideia simples, mas significativa: a livraria física pode ser também um lugar de encontro e de descoberta, não apenas um ponto de venda.

A revista Drummond: uma publicação para circular ideias

Entre as iniciativas mais interessantes da livraria está a revista Drummond, publicação trimestral de distribuição nacional e gratuita. Sua edição de outubro, novembro e dezembro de 2026 (ano 4, n. 18) reúne reportagens, entrevistas, artigos e indicações editoriais. A edição foi produzida pela Agência Blogueria Comunicação e Content Marketing, conforme seu expediente.

Os temas incluem o bookmaxxing e os novos hábitos de leitura, a literatura infantil, os livros-jogos e os enigmas, além de romances policiais e novidades do mercado editorial. Na seção “1001 Noites — Novidades e lançamentos”, encontramos uma seleção de obras bastante diversas.

Foi justamente dessa seção que o Registro da Prática pinçou quatro títulos para uma pequena curadoria literária, considerando as possibilidades de diálogo com a educação e, especialmente, com a Geografia:

  • Brasil Assombrado, de Daniel Pires: uma jornada pelas lendas brasileiras, que suscita questões sobre imaginário popular, identidade regional e diversidade cultural.
  • Operação Colares, de Luana Cruz: uma narrativa de ficção científica ambientada no Pará, que permite refletir sobre a Amazônia, os lugares, a memória e a distinção entre acontecimentos documentados e criação literária.
  • Um mar de foguinhos, de Eduardo Galeano: histórias que evocam saberes dos povos originários e oferecem possibilidades de discussão sobre cosmovisões, diferenças e humanidade.
  • Sem respeito, de Byung-Chul Han: uma reflexão filosófica sobre a convivência, a alteridade e as relações sociais contemporâneas.

Importa registrar a natureza dessa seleção: não se trata de resenhas decorrentes da leitura integral dos quatro livros. Trata-se de uma curadoria feita a partir das apresentações publicadas na revista. O reconhecimento da fonte é parte necessária do trabalho de divulgação cultural; além disso, recomendações presentes em uma publicação vinculada a uma livraria devem ser lidas levando-se em conta tanto sua dimensão informativa quanto sua finalidade editorial e comercial.

Experiências semelhantes em Porto Alegre

Os espaços dedicados à cultura do livro não se limitam à Avenida Paulista. Em Porto Alegre, livrarias independentes também combinam curadoria, circulação de ideias e diferentes formas de encontro entre leitores. Cinco iniciativas ajudam a perceber essa diversidade.

Livraria Baleia — Centro Histórico

Na Rua dos Andradas, 351, a Livraria Baleia apresenta-se como uma “livraria que lê”. Seu catálogo valoriza especialmente produções literárias e debates relacionados a feminismos, antirracismo e direitos humanos. O espaço promove cursos, eventos e encontros. Há ainda uma iniciativa próxima à revista Drummond: uma newsletter gratuita, com opção de receber programação cultural ou sugestões de leitura escolhidas pelas próprias livreiras.

Bamboletras — bairro Farroupilha

Fundada em 24 de abril de 1995, a Bamboletras possui uma trajetória marcante entre as livrarias independentes porto-alegrenses. Sua história está relacionada à busca por um catálogo literário especializado e à valorização do encontro entre leitores. Fundada pela jornalista Lu Vilella, passou, em 2018, à direção de Milton Ribeiro. Um pouco dessa trajetória pode ser conhecida na reportagem “Os 25 anos da Bamboletras”, publicada pelo Correio do Povo. Fontes cadastrais atuais situam o estabelecimento na Avenida Venâncio Aires, 113, no bairro Farroupilha.

Livraria Taverna — Casa de Cultura Mario Quintana

Localizada na Casa de Cultura Mario Quintana, na Rua dos Andradas, 736, a Livraria Taverna une a venda de livros à atividade editorial. Sua editora, fundada em 2018, procura promover a bibliodiversidade, publicando literatura brasileira e obras relacionadas a questões raciais, feminismos, política, gênero e sexualidade. A localização merece destaque: o antigo Hotel Majestic, convertido em casa de cultura, constitui um importante lugar de memória urbana de Porto Alegre.

Livraria Paralelo 30 — bairro Farroupilha

Na Rua Vieira de Castro, 48, próxima ao Parque Farroupilha, a Livraria Paralelo 30 começou com vendas pela internet e inaugurou seu espaço físico em 2022. O empreendimento valoriza literatura e humanidades e recebeu programação cultural, encontros, lançamentos e saraus. Em 2026, por exemplo, foi um dos espaços associados ao festival literário Rastros do Verão. Sua trajetória foi apresentada pelo Jornal do Comércio; é possível acompanhar sua programação no Instagram da livraria.

Via Sapiens — Cidade Baixa

Situada na Rua da República, 58, a Via Sapiens reúne atividades de livraria e editora, com atenção a obras de ecologia, permacultura e sustentabilidade. Seu catálogo permite aproximações particularmente férteis com a Geografia, sobretudo nas discussões sobre relações sociedade-natureza, questões ambientais e alternativas de organização dos modos de vida.

Essas iniciativas não são idênticas à Drummond, nem necessariamente mantêm revistas impressas semelhantes à publicação paulistana. Compartilham, porém, algo mais amplo: a tentativa de fazer da livraria um ponto de circulação cultural e não apenas de comércio.

Uma leitura geográfica das livrarias

Por que olhar para livrarias a partir da Geografia? Porque elas também fazem parte da produção social do espaço urbano. Sua localização, sua permanência ou seu desaparecimento, o público que atraem e as atividades que promovem ajudam a compreender transformações nas centralidades comerciais e culturais de uma cidade.

O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, e bairros de Porto Alegre como Centro Histórico, Farroupilha e Cidade Baixa são realidades distintas. Em todos eles, entretanto, a existência de livrarias remete a perguntas relevantes: que espaços a cidade reserva à cultura? Quem pode frequentá-los? Como se constrói uma comunidade de leitores? O que se perde quando uma livraria fecha suas portas?

Para a escola pública, essas perguntas também apontam para uma questão de acesso. Livrarias, bibliotecas escolares, bibliotecas públicas, editoras e feiras do livro têm funções diferentes, mas podem contribuir, cada uma à sua maneira, para que os livros circulem e cheguem a novos leitores.

Talvez resida aí a maior razão para acompanhar projetos como o da Livraria Drummond e o das livrarias independentes porto-alegrenses: o livro não é apenas um objeto de consumo; é também um meio de encontro, interpretação do mundo e formação cultural.


Fontes e leituras complementares

Texto de divulgação cultural preparado para o Registro da Prática a partir de pesquisa em fontes públicas, consulta à revista Drummond e curadoria educacional. Não constitui reportagem de visita presencial às livrarias mencionadas.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sobre o erro: uma primeira reflexão!

A escola é, por assim dizer, o lugar onde se pode errar. Afinal, é para isso que ali estão os educandos: para serem educados. E aqui não se está falando apenas em instruir, mas em educar de fato - algo que, como já dizia Pedro Demo, vai muito além do mero instruir. Nesse processo, é tácito: o erro participa, inevitavelmente.

Talvez por isso o erro seja hoje tão tolerado. Afinal, ele “faz parte”. É aceito. Contudo, é justamente fora da escola que vivemos um tempo curioso. Em vários setores da vida social, na maioria das vezes, errar não traz consequências.


"Não dá nada!". "Tô nem aí!"

 

Em alguns concursos, por exemplo, cada erro tira ponto. Não responder é neutro. Errar custa. E isso muda completamente a forma de pensar antes de marcar uma das alternativas.

Skinner (1904-1990) já afirmava que o comportamento responde às consequências - não para punir, mas para aprender. Quando o erro tem peso, o pensamento desacelera.

Skinner no Departamento de Psicologia de Harvard, (1950).
B. F. SKINNER. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/B._F._Skinner>. Acesso em: 02 fev. 2026.









Karl Popper (1902-1994), via o erro como motor do conhecimento. Dizia, em essência:


"Aprendemos por tentativa e erro."


Para ele, o conhecimento não avança quando simplesmente acertamos, mas quando erramos, identificamos o erro e o corrigimos.    

Karl Popper, em 1980.
KARL RAIMUND POPPER. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper>. Acesso em: 02 fev. 2026.
No pensamento de Aristóteles (384a.C-322a.C.), o erro surge como falha da deliberação. Para o estagirita, erramos quando decidimos sem deliberar, ou quando a razão não governa a ação. O erro, portanto, não é moralmente mau em si, mas revela uma formação ainda incompleta do juízo.

Busto de Aristóteles Cópia romana de uma escultura de Lísipo.
ARISTÓTELES. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Arist%C3%B3teles>. Acesso em: 02 fev. 2026
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Um tanto quanto diferente, Hannah Arendt (1906-1975) sustentava que agir é arriscar a errar. Na filosofia da existencialidade da filósofa alemã, deve-se dizer, há um distanciamento em relação às origens exitencialistas, tais como, as de Heidegger ou de Jaspers; ela não foca na interioridade, na subjetividade abstrata ou na "filosofia do eu"; traz a discussão, muito mais, para a esfera da filosofia política. 

Aqui, emerge um ponto decisivo, que o presente autor deseja destacar: no pensamento de Arendt, toda ação humana é, por definição, irreversível. Justamente por isso, exige responsabilidade. Pensar o erro a partir dessa chave muda tudo.

Hannah Arendt, em 1933.
 HANNAH ARENDT. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hannah_Arendt>. Acesso em: 02 fev. 2026.
Entretanto, o problema da nossa cultura atual não é errar - é não precisar revisar o erro.

Nos videogames contemporâneos, há vidas infinitas. Nos fliperamas da época do presente autor, eram três. Cada jogada importava.

Aspecto de uma "máquina" de Fliperama, nos anos 80.
No xadrez, cada lance é praticamente irreversível - como a palavra dita, como a decisão tomada. No xadrez, não existe “tô nem aí”. Um lance mal pensado permanece no tabuleiro. Não há como desfazer. A consequência ensina.

Vasyl Ivanchuk, a lenda ucraniana do xadrez, chorou após perder uma partida de Blitz, onde tinha uma posição vencedora, contra Daniel Naroditsky, em uma final, 2024.
Fonte: ALVA, Suraj. Throwback: Vasyl Ivanchuk Burst Into Tears After Losing To Daniel Naroditsky In World Blitz 2024 Event. Video. Free Press Journal. Disponível em: <https://www.freepressjournal.in/sports/throwback-vasyl-ivanchuk-burst-into-tears-after-losing-to-daniel-naroditsky-in-world-blitz-2024-event-video>. Aceso em 02 de fev., 2026.
Também por isso o xadrez é tão formativo para jovens: ele não ensina a não errar; ensina a pensar para não errar.

Assim, em relação ao erro, num mundo que anda rápido demais, decidir apenas depois de refletir não é só uma habilidade cognitiva - é uma atitude profundamente filosófica...

terça-feira, 20 de março de 2018

IDEIAS-FORÇA PARA ESTUDANTES!

ESTA PUBLICAÇÃO TENTA TECER NOÇÕES FORTES QUE PODEM ORIENTAR JOVENS ESTUDANTES EM SUAS VIDAS ACADÊMICAS...

AVISO: de antemão alerta-se para o fato de que o presente texto possui conteúdo moral, visto que "Jamais tivemos tanta necessidade de educadores morais" (NIETZSCHE)

Considero as noções que abaixo serão explanadas como uma poderosa ideia, por isso chamo de "ideias-força", termo que tomo emprestado da escola francesa de humanidades quando o assunto é o tempo (História) e espaço (Geografia), conceito que é mais bem trabalhado no livro de Serge Cordellier, chamado "O Novo Estado do Mundo: 80 idéias-força para entrar no século XXI. Porto: Campo das Letras, 2000".     

Já há alguns anos, eu gosto de começar o Ano Letivo ou o Semestre Letivo (no caso da EJA), levando aos estudantes noções que eu penso serem bastantes importantes para a vida deles como estudantes. Trata-se de uma noção que aprendi quando da leitura da obra "Escritos sobre Educação", do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).

No livro citado, Nietzsche faz uma série de críticas acerca da Educação (Obs.: no presente texto, o termo Educação será escrito com "e" maiúsculo, para designar a "Educação de verdade", profunda, bem feita, aquilo que vai além da mera instrução; "Educar é mais que o mero instruir", já dizia Pedro Demo, em várias de suas obras) de seu tempo (séc. XIX). Várias destas reflexões são importantíssimas para nós, hoje, em pleno século XXI.

Dentre elas, eu sempre destaco uma observação muito pertinente, que Nietzsche havia notado ao praticar seu ofício de professor, a saber: as pessoas, no tempo dele, estavam muito preocupadas em estudar para entrarem em uma profissão, sendo que, muitas daquelas profissões, eram oferecidas pelo Estado (com "e" maiúsculo, para designar o "governo", o "país", a figura estatal).


Não poderia deixar de ser, pois, na Alemanha do século XIX, um século após o início da "Revolução Industrial" (iniciada, em 1750), as fábricas estavam ainda mais pujantes, as rodovias, ferrovias, cidades e obras estavam no ápice de sua construção e (re)construção. Necessitavam, assim, de mão-de-obra especializada.

Sabendo disso, o Estado alemão passou a demandar trabalhadores para estas obras, e, de sua parte, os estudantes, futuros trabalhadores que eram, passaram a estudar para serem integrados pelo Estado nas respectivas profissões necessárias: médicos, engenheiros, professores, etc., todas as profissões necessárias à sociedade que emergia, estratificava-se e se complexificava.

Nietzsche via um problema nisso. Ele constatava que este tipo de estudo não é o mais acertado, adequado, e, por assim dizer, o mais excelso modo de estudar. Isso porque quando uma pessoa se preocupa em estudar tão somente para preencher uma vaga de emprego e/ ou para "entrar" ou "ter" uma profissão, pode acontecer (e normalmente é o que acontece mesmo), de que ela estude apenas os conteúdos que são ministrados naquele curso, esquecendo-se da criticidade, da profundidade, da reflexão e do rigor, que certamente podem serem levados em consideração ou serem oferecidos por qualquer que seja o ofício profissional.


Por outros termos, de modo sumário, nas palavras de um dos maiores pensadores brasileiros quando o assunto é Educação, o sociólogo catarinense, Pedro Demo: "Educar é mais do que o mero instruir", como já foi dito, e mais: "estudar é modo de vida". 

Ou seja, um curso superior, faculdade ou ensino técnico podem me dar todas as ferramentas para que eu desenvolva, no futuro, minha profissão. Mas, ainda assim, isso não quer dizer que eu adquiri, com ele, um conhecimento mais humano, profundo, rigoroso e crítico acerca do meu fazer como profissional, qualquer que seja a área do conhecimento. Educação é mais do que instrução. Além disso, Estudar é para toda a vida. É para sempre, nunca devemos parar de pesquisar.

Outra inspiração, nesse sentido, é a que nos chega desde o livro "O Pequeno Príncipe", do escritor francês, Saint-Exupéry (1900-1944), qual seja, a de que jamais devemos abandonar uma pergunta. De fato, era isso que fazia a personagem central do livro, “O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito.”. 

Por outros termos, se pararmos de pesquisar, se pararmos de irmos atrás de nossas dúvidas, de responder as perguntas às quais nos propomos, as mesmas ficarão sem respostas, e, por conseguinte, ficaremos sem aquele conhecimento. Urge, então, que rompamos com uma certa "preguiça", atual, que é a de sempre termos tudo ao alcance das mãos. Tornemo-nos perguntadores e respondedores de nossas próprias perguntas; tornemo-nos, pesquisadores.  

Neste ponto eu sempre gosto de colocar para os alunos que as pessoas, por exemplo, vão à academia, compram perfumes e usam roupas bonitas. Fazem tudo isso, por assim dizer, para si mesmas, para estarem malhadas, bonitas, cheirosas, enfim, executam e encaram tais práticas em benefício próprio, e como um benefício que é particular e intransferível. Porém, normalmente, não consideram a Educação da mesma forma. Não buscam com a mesma avidez o conhecimento.

Relativamente a isso, é interessante de se observar, que o estudar, o pesquisar, enfim, o Educar-se de modo consciente, é superior a todos as práticas humanas acima citadas, pois, depois, podem ser, por assim dizer, transferidos, repassados para as outras pessoas, para as gerações futuras.

Nesse sentido, em uma das recentes aulas que ministrei, lembro-me da resposta de um dos alunos à pergunta "por que você estuda?". Escreveu ele, "eu estudo para ajudar a humanidade.". Note-se o altruísmo, o desprendimento do estudante. Ele poderia ter respondido que estudava para dar um futuro melhor a si mesmo ou para ajudar a família; pensado no círculo social mais imediato, ele e o próximo imediatamente ao lado. No entanto, referiu-se à humanidade. São raras as pessoas que, hoje em dia, pensam no outro antes de si mesma; a preocupação em "deixar algo" está cada vez mais rara...

Ainda nesta esteira, em meu fazer pedagógico, não raras vezes, narro, aos estudantes, o diálogo entre os prisioneiros, padre e abade, Faria (que, provavelmente, foi inspirado no sacerdote, de mesmo nome, que realmente existiu) e Edmond Dantès; personagens que haviam sido condenados por motivos políticos escusos; mantidos no Castelo de If, localizado na ilha de mesmo nome, no Arquipélago do Frioul, na baía de Marselha, sul da França.

Faço isso diversas vezes porque há várias noções a serem aprendidas com o diálogo entre as personagens acima citadas, e que emergem ao longo do livro "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas (1802-1870). Dentre elas, a que me mais me interessa, é a a noção de que tudo pode ser tirado de um homem. Ele pode ser roubado em sua dignidade, em seus bens pessoais e até perder, como no caso de Dantès, a sua liberdade. Mas, há uma coisa que não pode ser tirada de um homem, o seu conhecimento.

Outro sentido que emerge da obra de Dumas, é o da dialética (e até mesmo dialógica) entre os conceitos de liberdade e de conhecimento. Mesmo preso, Dantès pôde haurir conhecimento. O conhecimento não pode ser encarcerado entre as paredes de u
ma masmorra. O conhecimento liberta; mesmo preso um homem pode estar livre em seus pensamentos e cultivá-los. Isso, penso eu, é muitíssimo importante para pessoas que, nas palavras de nosso querido educador recifense, Paulo Freire (1921-1997), estão oprimidas pelo peso de fardos sociais e econômicos. Ou seja, não importa a sua condição socioeconômica, você pode investir em seu conhecimento, em seu estudo, e, com isso, num futuro até mesmo bem próximo, poderá (e certamente conseguirá) a libertação.

Pode parecer piegas, utópica e até romântica esta minha visão, mas, sabe-se que, hoje em dia, pode até acontecer que uma pessoa que tenha estudo não seja devidamente reconhecida, não vindo a ser bem sucedida. Mas, certamente, bem mais difícil é o caminho da pessoa que não possui Educação.

Assim, podemos conceber, e é o que realmente vemos nas notícias, uma pessoa extremamente bem formada, que passou num concurso público; tomemos um juiz, por exemplo: um juiz normalmente mostra que possui uma instruções extremamente técnica e bem feita; chegou longe em sua vida de estudos e passou em concurso público. Entretanto, pode ocorrer de ele ser corrupto, pode acontecer de ele "passar por cima" dos outros, receber propinas, emitir juízos e sentenças em interesse próprio ou para beneficiar amigos e parentes. Enfim, um juiz pode ter uma bela instrução, mas uma péssima Educação. É claro que o exemplo não se aplica somente a juízes. Podemos conceber o mesmo para professores, advogados, médicos, padres e pastores, enfim, qualquer que seja a função, por assim dizer, social de uma pessoa.

O caso diametralmente oposto também é verdadeiro, podemos conceber uma pessoa humilde e pobre; tomemos uma faxineira, por exemplo: ela pode demonstrar que não tem uma boa instrução, não foi longe em sua vida estudantil e acadêmica, e não tem como, tão somente em virtude de sua condição cultural momentânea, passar em um concurso público. Ainda assim, pode ocorrer de ela ser correta, honesta e até mesmo sábia e honrada, demonstrando uma Educação de verdade.

Neste ponto, também sempre gosto de fazer os alunos refletirem acerca de o que é o conhecimento e o que é a sabedoria. No caso do juiz, tomado como exemplo acima, ele tem, certamente, conhecimento, mas não age com sabedoria. O conhecimento que ele tem, não serve para que ele tome decisões sábias. Já a faxineira, também tomada como exemplo acima, a despeito da pouca instrução e conhecimento técnico que possui, pode, perfeitamente, orientar e aconselhar seus filhos para um futuro promissor, honesto e que muito pode acrescentar a uma sociedade. Age, assim, diferentemente do juiz, com sabedoria.

Isso é muito bem demonstrado no filme "Mãos Talentosas" ("Gifted Hands: The Ben Carson Story"), que conta a vida de Ben Carson. A mãe de Carson, a Sra. Sonya Carson, não sabia ler nem escrever, e, no entanto, soube Educar seus filhos (Ben e Curtis) para que atingissem, mesmo com todas as dificuldades socioeconômicas, respectivamente, as profissões de neurocirurgião e engenheiro.

Contudo, o filme deixa claro isso, Ben não era (aliás, o termo não "era", mas sim "é"; Benjamin Solomon Carson, que inspira o personagem do filme, é uma pessoa real) somente um médico excelente, técnico e preciso, era uma pessoa humana, gentil, amorosa e fraterna; noções que não aprendeu na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan ou no Hospital Johns Hopkins, onde, respectivamente, estudou e cumpriu residência; emergem da Educação que aprendeu com a mãe.

Concluo dizendo que os argumentos que estou usando, podem até serem chamados, por assim dizer, de argumentos morais. Faço um alerta, no entanto: há pessoas que acusam os outros de estarem usando um argumento moral, e, com isso, querem denegrir a argumentação do interlocutor, como se isso fosse proibido ou como se este tipo de argumentação fosse inferior. Geralmente, as pessoas que fazem uso deste tipo de expediente, defendem uma educação (agora com "e" minúsculo) magra, rasa e pobre. Nas palavras de Demo: "educação pobre para os pobres". Dizem que, na escola, os professores devem se preocupar somente com o conteúdo, com a mera instrução, e tão somente com isso. Propõem que não se fale sobre a vida, sobre questões Éticas e Morais, querem proibir até mesmo questões Políticas, Sociais e Culturais.

Termino, respondendo a este tipo de proposta, de educação lixo, defendida por alguns "caras de pau", que querem mesmo é que o oprimido permaneça oprimido, com a seguinte citação de Nietzsche:

"Jamais tivemos tanta necessidade de educadores morais e jamais foi tão pouco provável encontrá-los; nas épocas em que os médicos são mais necessários, na ocasião das grandes epidemias, é então que eles estarão também mais expostos ao perigo" (NIETZSCHE, 2003, p. 146 (do livro já citado, do autor germânico)).

Espero, sinceramente, que este tipo de instrução, bem pontual e até mesmo óbvia para alguns, por mais evidente e visível que seja, transforme-se em algo que balize, como um leme, a vida dos meus estudantes, algo que os leve à verdadeira Educação.

quinta-feira, 29 de março de 2012

SOBRE AS RESPOSTAS AUTOMÁTICAS E A VIOLÊNCIA NA LINGUAGEM

UM TEXTO A RESPEITO DOS HÁBITOS QUE FALAM ANTES DA CONSCIÊNCIA...

Hoje um estudante me chamou de palhaço...

Entrei em sala de aula, fiz a chamada, e, imediatamente, passei a retomar a aula passada, dizendo que isso seria feito de modo muito rápido porque teríamos de tratar de um assunto bastante polêmico (tratava-se do conceito de populismo).

Enquanto eu falava, um dos estudantes levantou a mão.

Pensei que ele quisesse fazer uma pergunta e me coloquei a disposição, dizendo: “Pois sim!!!”.

Então, ele disse, de modo ríspido, interrompendo todo o encadeamento mental que eu estava fazendo: “sai da frente, quero copiar a matéria do quadro...” – o professor do período anterior havia deixado o quadro de giz lotado de conteúdo.

Então eu lhe disse: “Você nem precisava interromper a aula por causa disto. Eu já ia sair da frente, e, além do mais, estamos agora no período de Geografia e eu terei de apagar o quadro em seguida...”.

Dito isso e mais algumas palavras, relacionadas ainda com a retomada, pus-me a apagar o quadro.

Quando concluí, ouvi, do mesmo estudante: “terminei de copiar!!! Consegui, palhaço!!!”.

Virei imediatamente e fitei-o.

Ele entendeu que havia “pisado na bola” e disse: “Foi mal, professor, perdão!!!", e continuou: "É que eu estou acostumado a falar assim com os meus 'parceiros'...”.

Disse-lhe, então: “Pois é... Só que eu não sou nenhum dos teus 'parceiros', sou o teu 'pro-fes-sor'...”.

Novamente ele se desculpou... Entendi que ele realmente tinha se arrependido e iniciei a aula planejada para aquele encontro.

Vivenciar isso me fez retomar uma impressão, antiga, que eu tenho a respeito do comportamento impulsivo de alguns jovens adolescentes. E não só em relação a alguns jovens, mas, também, em relação a alguns adultos, e até alguns idosos. Não estou generalizando, nem todo mundo é assim. Talvez só uma minoria. Na verdade, vivenciar aquilo me fez refletir sobre como certas formas de falar tornam-se automáticas. Viram uma espécie de "resposta padrão". 

Quando este tipo de "resposta padrão" está muito presente na pessoa, quando deixa de ser pensada e passa a ser automática, a pessoa já não consegue mais se sair de forma inteligente (inteligente no melhor sentido piagetiano)... Não muda o comportamento: responde igual, tanto para um professor quanto para um juiz ou um policial

Trata-se de um hábito, no melhor e mais significativo sentido do termo. Trata-se de algo que foi vestido durante muito tempo, tomado para si: um comportamento, uma atitude e uma resposta que, invariavelmente, soa violenta, ou, no mínimo, pouco amistosa.

Lembrei também da palestra do Dr. Dr. Manfred Spitzer, que assisti, em 2007, na PUCRS... Na preleção, o doutor em filosofia e medicina (por isso o Dr. Dr.), mostrava os resultados de uma rigorosa pesquisa, através da qual ele concluiu que, em virtude de a Mídia (gosto de escrever, nestes casos, Mídia com “m” maiúsculo, porque engloba todas as mídias) veicular predominantemente conteúdos violentos, a resposta das pessoas também estava se tornando mais violenta.

Na verdade, segundo os dados apresentados pelo neurocientista, grande parte do conteúdo midiático é marcado por violência, simbólica ou explícita. Spitzer, na ocasião, foi além, dando números. Segundo ele, seus dados lhe permitiriam afirmar que 80% do que a Mídia veicula é violência, sugerindo que essa exposição massiva à violência pode influenciar significativamente a forma como muitas pessoas reagem aos estímulos cotidianos.

Vou passar a trabalhar, também, no sentido de conscientizar meus alunos a respeito disso.

Reflitamos...

Precisamos de uma Educação para a Paz.

Precisamos, cada vez mais, de uma Comunicação não Violenta.

SABER O MEU “DE ONDE VENHO” ORIENTA O “PARA ONDE VOU”

Como professor, vejo e ouço cada coisa - e muitas delas ficam reverberando para além da aula.

Hoje, ao tratar dos conceitos de fronteira e limite, mencionei os cânions da Serra Geral e dos Aparados da Serra, que marcam parte do limite entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A conversa fluía dentro do conteúdo quando um aluno perguntou:

- Professor, quem nasce em Santa Catarina é o quê?
- Catarinense - respondi.

Ele retrucou, com certa satisfação:

- Então eu sou catarinense.
- Nasceste lá? - perguntei.
- Sim.
- Em que cidade?
- Não sei.

Confesso que estranhei. Não fiz comentário. Apenas segui a aula.

Minutos depois, ele voltou a me chamar:

- Professor, descobri onde eu nasci.
- Onde?
- Xanxerê. Olhei na identidade.

A cena ficou comigo não pelo fato isolado - que pode ter muitas explicações -, mas pelo que ela simboliza.

Saber onde nascemos não é apenas um dado burocrático registrado em um documento. É referência espacial. É ponto de ancoragem. É pertencimento. É a primeira coordenada da própria história.

A Geografia começa exatamente aí: no “onde”.

E o “onde” não é detalhe. É estrutura.

Quando alguém sabe, ainda que minimamente, de onde vem, começa a organizar mentalmente o mundo a partir de um lugar. O espaço deixa de ser abstração e passa a ser chão. E todo projeto - consciente ou não - parte de algum chão.

Não se trata de nostalgia nem de idealização do passado. Tampouco de julgamento geracional. Trata-se de observar um fenômeno cultural mais amplo.

Arrisco uma hipótese para essa espécie de desenraizamento que por vezes percebo. Vivemos imersos em uma lógica de mediação permanente: filmes, séries, músicas, jogos digitais, redes sociais, conteúdos em fluxo contínuo. Não demonizo tais produções - seria simplista fazê-lo -, mas é inegável que a indústria cultural, orientada pela lógica do espetáculo e da velocidade, privilegia o macro, o distante, o extraordinário. O mundo global, o evento impactante, a narrativa grandiosa.

Pouco espaço resta, nesse ritmo, para o micro. Para o bairro. Para a cidade natal. Para a história local. Para o lugar onde a vida concreta acontece.

Não por conspiração deliberada, mas por modelo cultural. O extraordinário entretém. O próximo forma.

Talvez educar seja, também, ajudar cada estudante a localizar-se. No mapa, na história e em si mesmo. A reconhecer que há valor no lugar de onde veio, mesmo que ele pareça pequeno diante do mundo exibido nas telas.

Saber de onde venho não determina para onde vou. Mas orienta. Dá proporção. Oferece eixo.

E isso, para a formação humana, já é muito.