Da Avenida Paulista às livrarias independentes de Porto Alegre: iniciativas que mantêm viva a cultura do livro e a formação de leitores.
Registro da Prática | Cultura, literatura e Geografia | Outubro de 2026
Uma livraria no coração da Avenida Paulista
Em 2022, quando o crescimento do comércio eletrônico e as dificuldades enfrentadas pelas grandes redes de livrarias já transformavam o mercado editorial brasileiro, surgiu, em São Paulo, a Livraria Drummond. Instalada no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, a iniciativa nasceu de uma parceria entre Vitor Tavares, ligado à Distribuidora Loyola, e Pedro Almeida e Diego Drumond, da Faro Editorial.
A proposta era oferecer uma livraria-vitrine: um estabelecimento aberto à diversidade de editoras, autores e públicos, no qual o leitor pudesse não apenas procurar o título que já conhece, mas também descobrir livros inesperados. Afinal, percorrer estantes, conversar com livreiras e livreiros e folhear obras são experiências que um catálogo digital nem sempre consegue substituir. A criação do empreendimento foi noticiada pelo PublishNews em junho de 2022.
O Conjunto Nacional e a memória da Livraria Cultura
O endereço escolhido não é um detalhe secundário. O Conjunto Nacional, projetado pelo arquiteto David Libeskind, é um marco da paisagem urbana da Avenida Paulista. Inaugurado como centro comercial em 1958, foi tombado pelo Condephaat em 2005 e consolidou-se como lugar de convivência, consumo e atividades culturais.
Durante décadas, o edifício abrigou a célebre Livraria Cultura. Sua história naquele endereço remonta a 1969; em 2007, a rede instalou uma grande unidade no espaço do antigo Cine Astor. A loja tornou-se referência para gerações de leitores, com ambientes destinados a livros, artes e atividades culturais. A megaloja encerrou suas atividades no Conjunto Nacional em abril de 2024, conforme registra a história oficial do edifício.
A Drummond foi aberta em 2022 em uma das áreas anteriormente utilizadas pela Cultura, enquanto a antiga megaloja ainda funcionava em outra parte do complexo. Assim, não se trata de dizer que uma livraria simplesmente substituiu a outra: trata-se de reconhecer uma continuidade simbólica da presença dos livros naquele território cultural de São Paulo.
Drummond Play: novos leitores, novos espaços
Em agosto de 2026, a Drummond ampliou seu projeto com a Drummond Play, um novo espaço no mesmo Conjunto Nacional, com atenção especial aos públicos infantil, infantojuvenil e jovem adulto, além da cultura geek. A expansão foi apresentada como forma de favorecer a autonomia das crianças na escolha de seus livros e de ampliar o contato entre diferentes gerações de leitores.
Segundo reportagem do PublishNews de 19 de agosto de 2026, o novo ambiente foi anunciado com cerca de 200 m² e a ampliação do acervo das duas unidades para mais de 80 mil exemplares. O projeto exprime uma ideia simples, mas significativa: a livraria física pode ser também um lugar de encontro e de descoberta, não apenas um ponto de venda.
A revista Drummond: uma publicação para circular ideias
Entre as iniciativas mais interessantes da livraria está a revista Drummond, publicação trimestral de distribuição nacional e gratuita. Sua edição de outubro, novembro e dezembro de 2026 (ano 4, n. 18) reúne reportagens, entrevistas, artigos e indicações editoriais. A edição foi produzida pela Agência Blogueria Comunicação e Content Marketing, conforme seu expediente.
Os temas incluem o bookmaxxing e os novos hábitos de leitura, a literatura infantil, os livros-jogos e os enigmas, além de romances policiais e novidades do mercado editorial. Na seção “1001 Noites — Novidades e lançamentos”, encontramos uma seleção de obras bastante diversas.
Foi justamente dessa seção que o Registro da Prática pinçou quatro títulos para uma pequena curadoria literária, considerando as possibilidades de diálogo com a educação e, especialmente, com a Geografia:
- Brasil Assombrado, de Daniel Pires: uma jornada pelas lendas brasileiras, que suscita questões sobre imaginário popular, identidade regional e diversidade cultural.
- Operação Colares, de Luana Cruz: uma narrativa de ficção científica ambientada no Pará, que permite refletir sobre a Amazônia, os lugares, a memória e a distinção entre acontecimentos documentados e criação literária.
- Um mar de foguinhos, de Eduardo Galeano: histórias que evocam saberes dos povos originários e oferecem possibilidades de discussão sobre cosmovisões, diferenças e humanidade.
- Sem respeito, de Byung-Chul Han: uma reflexão filosófica sobre a convivência, a alteridade e as relações sociais contemporâneas.
Importa registrar a natureza dessa seleção: não se trata de resenhas decorrentes da leitura integral dos quatro livros. Trata-se de uma curadoria feita a partir das apresentações publicadas na revista. O reconhecimento da fonte é parte necessária do trabalho de divulgação cultural; além disso, recomendações presentes em uma publicação vinculada a uma livraria devem ser lidas levando-se em conta tanto sua dimensão informativa quanto sua finalidade editorial e comercial.
Experiências semelhantes em Porto Alegre
Os espaços dedicados à cultura do livro não se limitam à Avenida Paulista. Em Porto Alegre, livrarias independentes também combinam curadoria, circulação de ideias e diferentes formas de encontro entre leitores. Cinco iniciativas ajudam a perceber essa diversidade.
Livraria Baleia — Centro Histórico
Na Rua dos Andradas, 351, a Livraria Baleia apresenta-se como uma “livraria que lê”. Seu catálogo valoriza especialmente produções literárias e debates relacionados a feminismos, antirracismo e direitos humanos. O espaço promove cursos, eventos e encontros. Há ainda uma iniciativa próxima à revista Drummond: uma newsletter gratuita, com opção de receber programação cultural ou sugestões de leitura escolhidas pelas próprias livreiras.
Bamboletras — bairro Farroupilha
Fundada em 24 de abril de 1995, a Bamboletras possui uma trajetória marcante entre as livrarias independentes porto-alegrenses. Sua história está relacionada à busca por um catálogo literário especializado e à valorização do encontro entre leitores. Fundada pela jornalista Lu Vilella, passou, em 2018, à direção de Milton Ribeiro. Um pouco dessa trajetória pode ser conhecida na reportagem “Os 25 anos da Bamboletras”, publicada pelo Correio do Povo. Fontes cadastrais atuais situam o estabelecimento na Avenida Venâncio Aires, 113, no bairro Farroupilha.
Livraria Taverna — Casa de Cultura Mario Quintana
Localizada na Casa de Cultura Mario Quintana, na Rua dos Andradas, 736, a Livraria Taverna une a venda de livros à atividade editorial. Sua editora, fundada em 2018, procura promover a bibliodiversidade, publicando literatura brasileira e obras relacionadas a questões raciais, feminismos, política, gênero e sexualidade. A localização merece destaque: o antigo Hotel Majestic, convertido em casa de cultura, constitui um importante lugar de memória urbana de Porto Alegre.
Livraria Paralelo 30 — bairro Farroupilha
Na Rua Vieira de Castro, 48, próxima ao Parque Farroupilha, a Livraria Paralelo 30 começou com vendas pela internet e inaugurou seu espaço físico em 2022. O empreendimento valoriza literatura e humanidades e recebeu programação cultural, encontros, lançamentos e saraus. Em 2026, por exemplo, foi um dos espaços associados ao festival literário Rastros do Verão. Sua trajetória foi apresentada pelo Jornal do Comércio; é possível acompanhar sua programação no Instagram da livraria.
Via Sapiens — Cidade Baixa
Situada na Rua da República, 58, a Via Sapiens reúne atividades de livraria e editora, com atenção a obras de ecologia, permacultura e sustentabilidade. Seu catálogo permite aproximações particularmente férteis com a Geografia, sobretudo nas discussões sobre relações sociedade-natureza, questões ambientais e alternativas de organização dos modos de vida.
Essas iniciativas não são idênticas à Drummond, nem necessariamente mantêm revistas impressas semelhantes à publicação paulistana. Compartilham, porém, algo mais amplo: a tentativa de fazer da livraria um ponto de circulação cultural e não apenas de comércio.
Uma leitura geográfica das livrarias
Por que olhar para livrarias a partir da Geografia? Porque elas também fazem parte da produção social do espaço urbano. Sua localização, sua permanência ou seu desaparecimento, o público que atraem e as atividades que promovem ajudam a compreender transformações nas centralidades comerciais e culturais de uma cidade.
O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, e bairros de Porto Alegre como Centro Histórico, Farroupilha e Cidade Baixa são realidades distintas. Em todos eles, entretanto, a existência de livrarias remete a perguntas relevantes: que espaços a cidade reserva à cultura? Quem pode frequentá-los? Como se constrói uma comunidade de leitores? O que se perde quando uma livraria fecha suas portas?
Para a escola pública, essas perguntas também apontam para uma questão de acesso. Livrarias, bibliotecas escolares, bibliotecas públicas, editoras e feiras do livro têm funções diferentes, mas podem contribuir, cada uma à sua maneira, para que os livros circulem e cheguem a novos leitores.
Talvez resida aí a maior razão para acompanhar projetos como o da Livraria Drummond e o das livrarias independentes porto-alegrenses: o livro não é apenas um objeto de consumo; é também um meio de encontro, interpretação do mundo e formação cultural.
Fontes e leituras complementares
- DRUMMOND. São Paulo: Livraria Drummond, ano 4, n. 18, out./dez. 2026. 56 p. Revista consultada para a curadoria de livros.
- PublishNews — Drummond, a nova “livraria-vitrine” de São Paulo (13 jun. 2022).
- PublishNews — Drummond Livraria amplia espaço no Conjunto Nacional (19 ago. 2026).
- Conjunto Nacional — História do edifício.
- Livraria Baleia — Site oficial.
- Correio do Povo — Os 25 anos da Bamboletras (23 abr. 2020).
- Editora Taverna — Sobre nós.
- Jornal do Comércio — A abertura da Paralelo 30 (2023).
- Via Sapiens — Site oficial.
Texto de divulgação cultural preparado para o Registro da Prática a partir de pesquisa em fontes públicas, consulta à revista Drummond e curadoria educacional. Não constitui reportagem de visita presencial às livrarias mencionadas.












