Como professor, vejo e ouço cada coisa - e muitas delas ficam reverberando para além da aula.Hoje, ao tratar dos conceitos de fronteira e limite, mencionei os cânions da Serra Geral e dos Aparados da Serra, que marcam parte do limite entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A conversa fluía dentro do conteúdo quando um aluno perguntou:
- Professor, quem nasce em Santa Catarina é o quê?
- Catarinense - respondi.
Ele retrucou, com certa satisfação:
- Então eu sou catarinense.
- Nasceste lá? - perguntei.
- Sim.
- Em que cidade?
- Não sei.
Confesso que estranhei. Não fiz comentário. Apenas segui a aula.
Minutos depois, ele voltou a me chamar:
- Professor, descobri onde eu nasci.
- Onde?
- Xanxerê. Olhei na identidade.
A cena ficou comigo não pelo fato isolado - que pode ter muitas explicações -, mas pelo que ela simboliza.
Saber onde nascemos não é apenas um dado burocrático registrado em um documento. É referência espacial. É ponto de ancoragem. É pertencimento. É a primeira coordenada da própria história.
A Geografia começa exatamente aí: no “onde”.
E o “onde” não é detalhe. É estrutura.
Quando alguém sabe, ainda que minimamente, de onde vem, começa a organizar mentalmente o mundo a partir de um lugar. O espaço deixa de ser abstração e passa a ser chão. E todo projeto - consciente ou não - parte de algum chão.
Não se trata de nostalgia nem de idealização do passado. Tampouco de julgamento geracional. Trata-se de observar um fenômeno cultural mais amplo.
Arrisco uma hipótese para essa espécie de desenraizamento que por vezes percebo. Vivemos imersos em uma lógica de mediação permanente: filmes, séries, músicas, jogos digitais, redes sociais, conteúdos em fluxo contínuo. Não demonizo tais produções - seria simplista fazê-lo -, mas é inegável que a indústria cultural, orientada pela lógica do espetáculo e da velocidade, privilegia o macro, o distante, o extraordinário. O mundo global, o evento impactante, a narrativa grandiosa.
Pouco espaço resta, nesse ritmo, para o micro. Para o bairro. Para a cidade natal. Para a história local. Para o lugar onde a vida concreta acontece.
Não por conspiração deliberada, mas por modelo cultural. O extraordinário entretém. O próximo forma.
Talvez educar seja, também, ajudar cada estudante a localizar-se. No mapa, na história e em si mesmo. A reconhecer que há valor no lugar de onde veio, mesmo que ele pareça pequeno diante do mundo exibido nas telas.
Saber de onde venho não determina para onde vou. Mas orienta. Dá proporção. Oferece eixo.
E isso, para a formação humana, já é muito.
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