A cidade não é apenas o lugar onde vivemos: é também um espaço de relações sociais, de experiências cotidianas, de conflitos, de memórias e de possibilidades de transformação. Compreendê-la exige aprender a observar suas paisagens, interpretar sua organização territorial e reconhecer os processos históricos, econômicos, políticos e ambientais que participam de sua construção.
É nessa perspectiva que a Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Novo, situada na Zona Norte de Porto Alegre, participa do projeto CAU nas Escolas, iniciativa piloto de educação urbana desenvolvida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS), por meio de sua Comissão de Ensino e Formação (CEF).
O projeto propõe aproximar os estudantes dos conhecimentos da Arquitetura e do Urbanismo, incentivando a observação crítica dos espaços urbanos, o reconhecimento do território e a reflexão sobre o direito à cidade.
Na EMEF Porto Novo, a iniciativa envolve estudantes dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, estabelecendo importantes conexões com o ensino da Geografia e com as práticas pedagógicas de investigação do espaço geográfico.
O TERRITÓRIO COMO ESPAÇO DE APRENDIZAGEM
No dia 4 de setembro de 2026, o projeto foi apresentado à comunidade escolar, com a participação da presidente do CAU/RS, Andréa Hamilton Ilha, e de integrantes da Comissão de Ensino e Formação.
Fonte: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS, 2026).
A proposta parte de uma concepção fundamental: a cidade pode e deve ser compreendida como espaço educativo, no qual os estudantes são convidados a reconhecer os elementos da paisagem, identificar problemas urbanos e refletir sobre as condições de vida da população.
O entorno da EMEF Porto Novo oferece possibilidades particularmente relevantes para essa investigação. Situada em uma área de articulação entre Porto Alegre e municípios de sua Região Metropolitana, a escola está inserida em um território marcado por diferentes formas de ocupação, circulação e uso do solo.
Além disso, os impactos das enchentes de 2024 evidenciam a importância de discutir questões relacionadas ao planejamento urbano, à infraestrutura, à drenagem, aos riscos socioambientais e às desigualdades presentes na produção do espaço urbano.
Nesse contexto, estudar o bairro significa ir além de sua localização no mapa: significa compreender as relações que conectam a realidade local aos processos mais amplos de organização da cidade e da Região Metropolitana.
DA OBSERVAÇÃO DA PAISAGEM À CARTOGRAFIA COLABORATIVA
Uma das dimensões centrais da proposta é o reconhecimento do território por meio da observação direta, do registro de informações e da elaboração de representações espaciais.
As atividades contemplam caminhadas exploratórias pelo entorno da escola, identificação de lugares significativos, leitura da paisagem urbana e organização coletiva das informações obtidas.
No âmbito das aulas de Geografia, esse trabalho encontra importantes possibilidades de aprofundamento com a utilização de recursos de Cartografia Digital e Colaborativa, especialmente por meio da plataforma CalTopo.
Com destaque para as turmas 91 e 92, do 9º ano, a utilização dessa ferramenta integra uma proposta de investigação geográfica na qual os estudantes participam da identificação, delimitação e representação de elementos do território estudado.
A cartografia, nessa perspectiva, deixa de ser compreendida apenas como instrumento de localização e passa a constituir uma linguagem de investigação, interpretação e comunicação do espaço geográfico.
O trabalho permite relacionar conhecimentos cartográficos a questões concretas do cotidiano, articulando diferentes escalas de análise e valorizando os saberes que os próprios estudantes possuem sobre os lugares onde vivem.
A CIDADE QUE TEMOS E A CIDADE QUE QUEREMOS
No dia 9 de outubro, uma nova etapa do projeto reuniu estudantes e representantes do CAU/RS para retomar os registros produzidos durante o reconhecimento do entorno escolar.
As informações levantadas foram organizadas coletivamente e transformadas em material gráfico destinado à exposição na escola, ampliando as possibilidades de compartilhamento das observações com a comunidade escolar.
Mais do que reconhecer edificações, ruas, equipamentos públicos e espaços de circulação, a proposta convida os estudantes a refletir sobre a cidade como uma construção social, continuamente transformada pela ação humana.
Fonte: Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS, 2026).
Nesse sentido, questões relacionadas à mobilidade, à acessibilidade, à habitação, ao saneamento, ao meio ambiente e à infraestrutura urbana passam a integrar uma discussão mais ampla sobre cidadania e participação social.
O direito à cidade, portanto, não se resume ao acesso aos espaços urbanos, mas envolve também a possibilidade de compreender, discutir e participar das decisões que interferem na organização e na transformação desses espaços.
GEOGRAFIA, INTERDISCIPLINARIDADE E FORMAÇÃO CIDADÃ
A experiência desenvolvida na EMEF Porto Novo estabelece um diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, especialmente Geografia, História, Artes, Matemática e Ciências, além de mobilizar práticas de leitura, escrita, representação gráfica e comunicação.
No campo da Educação Geográfica, destacam-se conceitos fundamentais como lugar, paisagem, território, região e espaço geográfico, que permitem compreender a cidade em suas múltiplas dimensões.
A aproximação entre a escola e o CAU/RS também evidencia a importância da articulação entre os conhecimentos científicos, técnicos e escolares, reconhecendo que a formação para a cidadania se fortalece quando os conteúdos curriculares encontram correspondência nas experiências concretas dos estudantes.
Ao investigar o território onde estudam e vivem, os jovens são convidados a desenvolver um olhar mais atento para sua realidade e a compreender que a cidade não é uma construção pronta ou imutável: ela resulta de processos históricos, interesses, decisões e ações coletivas.
Aprender a ler a cidade é, também, aprender a reconhecer-se como sujeito de sua história e de suas transformações.
O Registro da Prática acompanha e documenta essa experiência, valorizando a investigação geográfica, a construção coletiva do conhecimento e o protagonismo dos estudantes da EMEF Porto Novo.
SAIBA MAIS — PUBLICAÇÕES DO CAU/RS
04 de setembro de 2026
CAU/RS leva Arquitetura e Urbanismo para dentro das escolas com projeto de educação urbana
13 de outubro de 2026
CAU nas Escolas: alunos da EMEF Porto Novo conhecem o bairro para entender o direito à cidade
REFERÊNCIAS
CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO GRANDE DO SUL (CAU/RS). CAU/RS leva Arquitetura e Urbanismo para dentro das escolas com projeto de educação urbana. Porto Alegre: CAU/RS, 4 set. 2026. Disponível em: https://caurs.gov.br/cau-rs-leva-arquitetura-e-urbanismo-para-dentro-das-escolas-com-projeto-de-educacao-urbana/. Acesso em: 16 out. 2026.
CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO GRANDE DO SUL (CAU/RS). CAU nas Escolas: alunos da EMEF Porto Novo conhecem o bairro para entender o direito à cidade. Porto Alegre: CAU/RS, 13 out. 2026. Disponível em: https://caurs.gov.br/cau-nas-escolas-emef-porto-novo-material-bairro/. Acesso em: 16 out. 2026.
REGISTRO DA PRÁTICA | Geografia – EMEF Porto Novo – Porto Alegre/RS | Outubro de 2026.

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